Penso que são poucos os que nunca ouviram falar ou que nunca leram algo de Wilson João, Frei Capuchinho, que por quase quarenta anos escreveu sua coluna “Novo jeito de viver” no jornal Correio Riograndense. Ele partiu para a casa do Pai no último dia três e em sua homenagem partilho com vocês sua última mensagem publicada no dia sete: “caridade à distância”.
Conta ele: Vivi uma experiência linda numa celebração de Natal. Foram feitos muitos preparativos para a noite de Natal. E a noite foi linda: música, luzes, mensagens, cantos... Tudo lindo! Muita criação em torno do fato. Coisas de encher os olhos. E no meio de tudo isso fiz algo diferente.
Alguém me propôs: “vou fazer uma oferta de carne para vinte famílias. Você conhece mais os necessitados da cidade, pode fazer esse trabalho para mim?” Topei. Busquei os sessenta quilos de carne. Reuni as vinte famílias. Fiz uma oração com elas. Conversei. Abracei. Entreguei a cada um pessoalmente o pacote.
Voltei depois um tanto apressado, para preparar bem a celebração da noite de Natal. E tudo foi muito lindo. Passado o Natal, e tomando o Natal em minhas mãos, pude perceber que tudo o que fiz, pensei e realizei, somente uma ação encheu o meu coração, muito mais que os olhos. Esqueci todos os votos de Feliz Natal, os abraços, músicas, belezas, presépios e somente lembrei-me de um fato: o sorriso e o abraço de quem entreguei pessoalmente um pacote de carne. Só ficou aquilo que tocou meu coração.
Há campanhas de agasalho sem coração.
Campanhas de sobras. De limpeza de casa. De botar fora o que não presta. De desfazer-se. Tudo sem coração e sem amor. Vale muito pouco um gesto pessoal sem amor. Torna-se um gesto frio. Sem coração. O bonito é o tu a tu. É o contato pessoal. É o olhar nos olhos. É ver o sorriso. É o abraço.
Há cheques frios, mesmo tendo validade. Frios de relacionamento. Descarga de consciência. Ajuda a entidades a longa distância. É o medo e o nojo do cheiro do pobre. Tem muito medo de cheiro de pobre. A sociedade hipócrita continua organizando chás beneficentes, que satisfazem o ego e o estômago dos participantes, e se orienta em dar as sobras para organizações de caridade.
O quente da relação é o estar junto. É o mais difícil, mas o mais gostoso. É o que fica. É o que realiza. Caridade a distância tem muito pouco valor, porque não converte, porque não transforma. O que ajuda é a presença, é o nome que a gente fala, é a mão que a gente aperta, é o corpo sofrido que a gente abraça.
Um Deus perfeito nos abraça. É abraço de Jesus. Sendo Deus perfeitíssimo, se fez Jesus, quer dizer um corpo nascido de uma mulher, Maria. Não significa que Ele “sujou-se”, mas assumiu nossa vida, nossas dores, nossa fome, nosso cansaço, nossas limitações. Abraçou a cada ser humano que se deixou abraçar. É o estar junto para estender a mão e erguer.
Podia ter decretado lá dos “altos céus”: sejam todos salvos e realizados pela minha vontade e poder! Não fez nada disso. Não mandou cheques, não fez campanhas beneficentes, não promoveu chás. Seu sangue foi o cheque da salvação. Ele nos preparou a Ceia beneficiente da vida. (Wilson João).
Que reflexão bonita e cheia de vida, de vibração, de coração, quente e capaz de questionar e comover o mais duro coração.
Não nos chama a esquentar tudo o que fazemos? Quanta coisa fazemos por fazer, com frieza e sem amor?
A mim, me fez perguntar: por que nossas campanhas custam tanto decolar? Não será porque falta entusiasmo interior de quem promove e de quem dá?
Lembremos do óbolo da viúva do Evangelho: dá muito quem dá o que tem e de coração.
Isso vale não só para a campanha da reforma da Catedral, da restauração da Igreja São Domingos e outras, mas para todo gesto pessoal de solidariedade que fazemos.
Como dizia o Wilson João: “vale muito pouco um gesto sem amor. Torna-se um gesto frio, sem coração. Só ficou o que tocou meu coração”.
Esse pensar fez nascer em mim o desejo de abraçar e abençoar cada um e cada uma de vocês pessoalmente.
Tenham todos e todas uma feliz e abençoada semana.
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